terça-feira, 22 de março de 2016

Fundo Imobiliário Volta a Ganhar em Fevereiro

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Fundo imobiliário volta a ganhar em fevereiro

A queda das taxas de juros no mercado e a retirada do horizonte, pelo menos no curto prazo, do risco de tributação dos dividendos aguçaram o apetite do investidor por fundos imobiliários em fevereiro. No mês passado, o retorno médio de 69 carteiras imobiliárias com negociação no mês, ponderado pelo valor de mercado, foi de 2,32%, mostra levantamento da Quantum. O resultado, que considera a variação das cotas em bolsa e a distribuição de proventos, representa uma mudança de rota em relação aos dois meses anteriores, marcados por prejuízos de 2,46% em dezembro e 4% em janeiro.

Por ser um mercado formado basicamente por pessoas físicas, seu desempenho está muito atrelado à competitividade dos dividendos distribuídos mensalmente, isentos de imposto de renda, em relação aos juros, destaca André Leite, sócio da gestora de patrimônio Tag Investimentos. "É muito raro ver uma análise mais apurada do investidor sobre a qualidade do ativo imobiliário", afirma.

Assim, a recuperação dos fundos em fevereiro está apoiada basicamente no ganho de atratividade dos dividendos, segundo Leite, a partir da queda das taxas de juros de mercado, como as pagas por títulos públicos prefixados e atrelados à inflação. O cenário começou a mudar com o entendimento no fim de janeiro de que o BC não ia mais aumentar a taxa Selic e podia até começar a cortá-la, em função da deterioração da atividade, e com o aumento recente da probabilidade de mudança de governo.

De fato, quando se olha apenas o retorno com dividendos, os fundos imobiliários superam os juros. Levantamento da Quantum mostra que, em fevereiro, o "dividend yield" foi de 1,09%, acima do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), referencial para aplicações conservadoras, com variação de 1,05%. Em dois meses, a diferença aumenta, com 2,21% de retorno com dividendos para os fundos imobiliários e 2,07% para o CDI.

Além do alto patamar de juro, com a Selic em 14,25%, Larissa Nappo, analista da Citi Corretora, lembra que os fundos sofreram muito em dezembro e janeiro com a proposta de tributação dos dividendos, entre outras medidas, sugerida no projeto para conversão em lei da MP 694. Também no fim de 2015, segundo Larissa, algumas carteiras anunciaram revisões para baixo de valores de aluguel e até mesmo rescisões de contrato, o que pressionou a expectativa de rendimentos e as cotas em bolsa.

Foi o caso do BTG Pactual Corporate Office Fund (BC Fund), um dos maiores do mercado e detentor integral das cotas do Prime Portfólio, que, juntamente com o Torre Almirante, recebeu notificação da Petrobras solicitando a rescisão do contrato de locação, segundo fato relevante de 29 de dezembro.

"A perspectiva de tributação e anúncios de rescisões de contratos de aluguel fizeram com que as cotas caíssem bastante em dezembro e janeiro, o que tornou o yield [relação percentual entre o dividendo e o valor da cota em bolsa] bastante atrativo", diz. No início de fevereiro, a retirada do trecho que alterava a tributação dos dividendos do projeto de conversão em lei da MP 694, abriu espaço, segundo Larissa, para a retomada do apetite pelos fundos imobiliários.

O bom desempenho continua em março, segundo Larissa. O Ifix, índice de fundos imobiliários da BM&FBovespa, sobe cerca de 5,7% no mês, revertendo as perdas no ano para um ganho de 2,14%.

Marcio Verri, diretor-presidente da Kinea Investimentos, diz que o desconto em relação ao valor patrimonial com que os fundos vêm sendo negociados, por conta do ciclo de aperto monetário e da retração econômica com forte impacto sobre o mercado imobiliário, começa a atrair compradores. "Grandes investidores, principalmente de private banking, iniciaram um movimento de compra para se beneficiar da perspectiva de queda de juros com reversão nas expectativas de inflação."

A própria Kinea viu o forte apetite do investidor, ao ter de ampliar a oferta pública de cotas da 4ª emissão do Kinea Rendimentos, fundo que compra basicamente Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI) e Letras de Crédito Imobiliário (LCI), para atender a demanda. A captação, cuja oferta inicial era de R$ 300 milhões, fechou em R$ 380 milhões, elevando o patrimônio do fundo para R$ 1,45 bilhão.

Ainda não é possível dizer que essa será a toada daqui para frente. "O momento ainda é muito delicado para o segmento, que depende da redução dos juros e da melhora do mercado imobiliário para engatar", diz Larissa. Verri, da Kinea, lembra que há desafios como uma economia que ainda demora a se recuperar e um mercado imobiliário com vacância ascendente.

Para Leite, da Tag, apesar da queda do juro no mercado, o cenário político ainda está longe de ser resolvido. Mesmo que haja mudança de governo, o que vem depois - quem vai para a Fazenda, para o BC - é uma incógnita, diz. Além disso, considera, o setor imobiliário deve levar de três a quatro anos para se recuperar. "Há outras opções com uma relação risco/retorno muito mais favorável. Prefiro ficar só em taxa de juros, como na NTN-B."

 

Contribuinte Poderá Quitar Dívidas com a Transferência de Imóveis

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Contribuinte poderá quitar dívidas com a transferência de imóveis

A presidente Dilma Rousseff sancionou emenda em uma medida provisória (MP) para permitir que valores inscritos na dívida ativa da União, Estados e municípios possam ser quitados com a transferência de imóveis para o Poder Público, procedimento conhecido como dação em pagamento.

O instrumento já era previsto no Código Tributário Nacional, de 1966, e em lei complementar de 2001. No entanto, decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) indicavam que o mecanismo não poderia ser adotado por falta de regulamentação. Para os ministros, apesar de o CTN ter autorizado a modalidade de extinção do crédito tributário, não a impôs.

A regulamentação ocorreu na quinta-feira, com a sanção de emenda à MP 692/2015 - proposta que tinha por finalidade elevar o Imposto de Renda sobre ganho de capital em decorrência da alienação de bens. "Nos termos desta nova lei, trata-se de um direito do contribuinte", afirma o advogado Fábio Calcini, do Brasil Salomão & Matthes Advocacia.

Para o advogado, o mecanismo é interessante porque a venda de bem para quitação posterior de dívida pode não ser possível em momento de crise no mercado imobiliário. Ele afirma ainda que bens penhorados são, muitas vezes, arrematados em leilão por valores inferiores, o que pode prejudicar o contribuinte.

Já a advogada Ana Cláudia Utumi, do TozziniFreire Advogados, pondera que, em alguns casos, a avaliação judicial pode indicar valor inferior ao do mercado. "Dependendo do imóvel, vale a pena a própria empresa tentar vender para pagar o Fisco", diz. Apesar disso, a tributarista considera a regulamentação positiva, especialmente em um momento em que há empresas com problemas de liquidez.

Relator da medida provisória, o senador Acir Gurgacz (PDT-RO) diz que a inclusão do texto foi solicitada pelas associações comerciais para ajudar empresas com dificuldades financeiras, mas que possuem bens e querem regularizar sua situação. "Se essas empresas estiverem inadimplentes não vão conseguir financiamento ou ter acesso a crédito", afirma.

Segundo ele, o governo entendeu que seria muito difícil recuperar o dinheiro por outras vias. "O que está se imaginando é que essas empresas já não conseguiriam mais fazer os pagamentos por falta de caixa. Era um dinheiro que já estava perdido se não déssemos essa alternativa", diz. Não foi feita estimativa de arrecadação, acrescenta o senador, mas "há muitas interessadas". A dívida ativa da União é estimada em R$ 1,5 trilhão.

Para o deputado Alfredo Kaefer (PSL-PR), a lei ajudará em tempos de crise. Ele é autor de emenda sobre o mesmo tema, mas que, a exemplo de projeto de 2009 do próprio governo, permitia que bens registrados em nomes de "laranjas" também fossem usados para eliminar as dívidas. "Muita empresa não tem condição de esperar a venda do imóvel para quitar suas dívidas. E para o governo é melhor receber um bem do que ficar sem nada", afirma.

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), porém, tem ressalvas ao texto aprovado. Os dois pontos que mais preocupam seriam a falta de exigência de manifestação de interesse do credor em receber o bem e não haver previsão sobre eventual divisão de valores em caso de o bem ser usado para pagar uma autuação de contribuinte no Simples Nacional, por exemplo - que incluiria tributos federais, estaduais e municipais.

De acordo com Utumi, alguns Estados já fazem adjudicação, permitindo a transferência de bens para o pagamento de dívidas, mas somente daqueles bens que interessam ao ente público no momento. A Prefeitura de São Paulo também já regulamentou a norma em 2001.

A partir da nova lei, é possível quitar débitos na dívida ativa com todos os entes públicos por meio desse procedimento.

De acordo com fontes, a PGFN estaria estudando a possibilidade de acrescentar algumas restrições ao texto aprovado. Seriam incluídas por meio de outro projeto de lei ou medida provisória.

 

quinta-feira, 10 de março de 2016

Incentivo aos Incentivados

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Incentivo aos incentivados

Os fundos de investimento em debêntures de infraestrutura, apesar da atratividade óbvia dos papéis, com isenção de imposto de renda às pessoas físicas e tributação menor para as jurídicas, pareciam daquelas ideias fadadas ao abandono. Isso até segunda-feira. No início da semana, o governo anunciou uma flexibilização das regras para emissão dos ativos que fez a categoria vislumbrar uma chance de, finalmente, decolar - há apenas seis carteiras do gênero e a maioria está fechada devido à oferta limitada de papéis.

Com as mudanças, as concessões, outorgas e projetos de parceria público-privada (PPP) já se qualificam como prioritárias e ficam habilitadas a emitir os papéis, também chamados de debêntures incentivadas devido ao benefício tributário, o que desburocratiza e, consequentemente, encurta o processo para emissão.

O cenário macroeconômico, entretanto, com a elevação dos prêmios pagos pelos títulos privados, desestimula novas emissões e pode frear esse entusiasmo. Marcelo Michaluá, sócio da RB Capital, explica que o rebaixamento das notas soberanas e de companhias pelas agências de classificação de risco trouxe uma reprecificação dos 'spreads'. "Você passa a ter um cenário no qual o soberano está mais arriscado, o que tem uma correlação direta com o crédito do setor privado, e o mercado começa a requerer prêmios de risco maiores", diz.

O gestor acrescenta que o corte do rating das companhias pode ainda tornar as cláusulas de 'covenant' (proteções previstas nos contratos com limites que, se forem desrespeitados, podem acionar o pagamento antecipado da dívida) mais restritivas. "Uma empresa que conseguia tomar dívida 'clean' há três anos, hoje já não consegue mais e tem de recorrer a operações estruturadas que precisam de garantias adicionais, como imóveis", pondera.

O interesse pelas debêntures incentivadas cresceu no ano passado, com a escassez de ofertas de Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), levando gestores a lançar fundos para atender essa procura. No entanto, as emissões das debêntures com isenção de IR não acompanharam o crescimento da demanda na mesma proporção devido ao processo burocrático e lento, que exigia a aprovação do ministério de cada setor específico.

Os principais aplicadores têm sido as pessoas físicas, que ficaram com poucas opções para investir em letras de crédito - títulos cujo apelo também é a isenção do IR. "São os órfãos das LCIs e LCAs que investiram nos fundos de debêntures de infraestrutura", conta Leonardo Breder, gestor da Brasil Plural, instituição que lançou um fundo do tipo em agosto do ano passado.

A oferta de LCIs e LCAs, títulos emitidos pelos bancos, foi mais tímida em 2015. Como a economia entrou em marcha lenta, as operações de crédito imobiliário e agrícola reduziram-se, e os bancos tiveram menos necessidade de captar recursos. Portanto, emitiram menos letras. Além disso, a remuneração dos papéis caiu. Se no início de 2015 as letras de grandes bancos rendiam 98% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI) para clientes de alto patrimônio, no fim do ano os mesmos investidores não conseguiam rentabilidades maiores que 91% do índice de referência. E, por mudanças na regulamentação, os prazos mínimos para resgate aumentaram de 60 para 90 dias, no caso de LCIs, e de zero para 90 dias nas LCAs.

Também contribuiu para o aumento do interesse pelas debêntures incentivadas a migração da renda variável para a fixa. Como o Índice Bovespa vem amargando quedas desde 2013 e os juros subiram ao longo de 2015, a renda fixa tornou-se mais atraente. E, dentro da renda fixa, as aplicações isentas de IR ficaram mais chamativas. "As pessoas físicas estão ávidas por títulos de renda fixa isentos do imposto", afirma Fábio Zenaro, superintendente de produtos da Cetip.

Paralelamente ao aumento da demanda, houve queda nas ofertas de debêntures de infraestrutura, com a piora do cenário macroeconômico. As emissões no ano passado foram 16% inferiores às de 2014, totalizando R$ 5 bilhões, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima).

Breder diz que a aceitação do fundo Brasil Plural Debêntures Incentivadas foi muito boa entre os investidores - com aplicação mínima de R$ 100, o patrimônio já alcança R$ 82 milhões. Mas, como a oferta de debêntures de infraestrutura é pequena, a saída foi fechar a carteira para não correr o risco de ficar desenquadrada. Para contar com a isenção do IR, os fundos de debêntures de infraestrutura têm até seis meses para aplicar pelo menos 67% do patrimônio nesses títulos. Dois anos a contar da data de criação, o percentual sobe para 85%. Se esses percentuais não forem atingidos, o benefício fiscal é perdido e o investidor passa a ter de pagar imposto.

Outra gestora que recentemente lançou um fundo do tipo foi a Fator Administração de Recursos (FAR). Aberto à captação em novembro de 2015, o Fator Debêntures Incentivadas está com patrimônio de R$ 53 milhões, captado de investidores de private banking, com recursos acima de R$ 1 milhão. Antonio Conceição, responsável pelos investimentos da FAR, diz que a grande dificuldade tem sido encontrar lastro. No ano passado, o fundo só entrou em emissões primárias. Mas em 2016 já fez algumas compras pontuais de títulos no mercado secundário, relata o gestor. "Com a deterioração da economia, não faz sentido tomar crédito por tomar", acrescenta.

A situação é sentida também pela Bradesco Asset Management (Bram), pioneira no produto. Seu fundo, batizado de Bradesco Crédito Privado Infraestrutura Incentivada, foi lançado em setembro de 2013. Com patrimônio de R$ 77 milhões, a carteira está fechada atualmente e tem duração média de 15 anos. "Teríamos demanda para criar um novo fundo do tipo, mas é difícil montar novos produtos porque faltam operações no mercado", afirma Patrícia Pimenta, gestora responsável pelos fundos de crédito privado da Bram.

Ela ressalta que, além do número restrito de ofertas, grande parte dos emissores que vieram ao mercado primário em 2015 eram maduros, com risco reduzido, ou seja, pagavam spreads considerados baixos ou até negativos. Esse foi o caso da Comgás, que lançou uma oferta de debêntures de infraestrutura em dezembro. Uma das três séries da operação saiu pagando 0,3% abaixo do prêmio oferecido pela NTN-B com vencimento em 2020. Na ocasião, a remuneração foi de Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais 7,14%.

Pode parecer uma remuneração alta, mas não é considerada atraente por muitos gestores. "Como a debênture tem risco de crédito, ela deveria ter um spread em relação ao título público", argumenta Fausto Silva Filho, gestor de renda fixa da XP Gestão de Recursos. O que explica a ausência de ganho adicional é justamente a isenção do IR: o investidor leva em conta que não irá pagar o imposto e se dispõe a receber menos. Neste ano, contudo, os spreads voltaram a subir. (Colaborou Sérgio Tauhata)

 

quinta-feira, 3 de março de 2016

Na Onda do CRA

http://www.valor.com.br/financas/4463526/na-onda-do-cra

Na onda do CRA

No mundo das siglas que compõem o portfólio, uma em especial cresceu e apareceu nos últimos meses. O estoque investido em Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) mais do que triplicou entre janeiro e dezembro de 2015, chegando a R$ 6,4 bilhões, segundo dados da Cetip. Ainda que esteja longe do volume da parente mais conhecida, a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), com quase R$ 200 bilhões, o papel chama a atenção pelo crescimento acelerado, inclusive no varejo. O retorno pode ser interessante, dizem os alocadores. O perigo é somente a carona no sucesso da prima mais famosa, que tem características muito diferentes, especialmente quanto ao risco.

Os investidores órfãos das LCAs e das Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), que se tornaram mais escassas para pequenos aportes, encontraram amparo nos CRAs. Distribuidores de varejo, como XP e Guide, começaram a oferecer o papel. "2015 foi o ano dos CRAs", afirma Bruno Carvalho, gerente de renda fixa da Guide, que não coloca o produto na prateleira, mas oferece diretamente aos clientes da plataforma, com aplicação mínima a partir de R$ 1 mil. "Em um cenário de incerteza, o investidor foge da renda variável e vai para o crédito", conta.

Grande parte das emissões tem saído com retorno próximo a 100% do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), referencial para aplicações conservadoras, sendo que o ganho é isento de imposto de renda.

Carvalho alerta, entretanto, que o CRA está na árvore genealógica mais próximo de uma debênture do que de uma LCA. O certificado não tem proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que, no caso da LCA, resguarda até R$ 250 mil por investidor se houver quebra da instituição financeira. E, diferentemente das letras, não é emitido por um banco.

Como um instrumento de captação de recursos para financiar o agronegócio, o CRA tem como lastro recebíveis originados de negócios entre produtores rurais, inclusive financiamentos ou empréstimos relacionados à produção ou venda de produtos do setor. Somente companhias denominadas securitizadoras podem emitir os certificados, a partir da aquisição dos créditos e colocação no mercado financeiro. Vale destacar que os recebíveis ficam vinculados ao certificado, para o pagamento de juros e amortização do principal.

Uma forma de compensar a falta de proteção do FGC, defende Carvalho, é investir apenas em CRAs com nota máxima pelas agências de classificação de risco. Marcelo Urbano, responsável pela área de crédito da gestora de patrimônio GPS, é ainda mais cauteloso. "Rating é uma foto do passado. Quando muda, o problema já aconteceu", diz, lembrando que a Petrobras, afogada na investigação da Lava-Jato, há poucos anos tinha nota máxima de crédito. Hoje, alguns investidores ainda têm papéis da estatal sem qualquer prêmio sobre o título público.

Além de usar o rating apenas como informação adicional, a recomendação de Urbano é não se deixar levar somente pelo nome por trás da emissão. É bom saber se quem recomendou o papel fez uma análise profunda da companhia para a qual o investidor vai, na prática, fazer um empréstimo. "Quem são os acionistas? Qual é a necessidade de liquidez da empresa nos próximos anos? Qual é a perspectiva de geração de caixa? Se a operação tem garantias, como elas estão construídas? O que pode dar errado?", lista o executivo da GPS, acostumado a selecionar papéis para clientes de alto patrimônio. E cita outro caso de risco de crédito para guardar na memória - os bônus externos emitidos pela Samarco, tidos como de qualidade óbvia, chegaram a ser negociados por metade do valor de face após o desastre ambiental em Mariana (MG).

Urbano recomenda ainda que, depois de feito o investimento, o risco de crédito seja reavaliado anualmente ou até trimestralmente nos casos de operações menos óbvias. Uma dica é selecionar papéis de companhias de capital aberto, que divulgam balanços e têm áreas de relações com os investidores.

Embora não tenha a blindagem do FGC, as emissões costumam embutir alguns mecanismos de segurança para minimizar o risco de crédito. É o caso, por exemplo, da oferta pública de cerca de R$ 100 milhões com lastro em recebíveis de produtores e distribuidores clientes da Bayer, que acaba de ser fechada.

Além dos títulos distribuídos ao investidor, a operação contou com outras duas tranches que funcionam como um colchão de proteção para o caso de inadimplência, já que são as primeiras a absorverem eventuais prejuízos: uma parcela de 5% (CRA Subordinado), que ficou com os próprios distribuidores e produtores clientes da Bayer, e outra de 10% (CRA Mezanino), detida pela Bayer. As séries ainda contam com a proteção de um seguro de crédito firmado com a AIG, que cobre 85% do valor total, entre principal mais juros.

"É uma oportunidade de diversificação em um papel sem dúvida mais complexo do que uma LCA, mas com bom risco de crédito e um retorno bruto significativo", diz Marcos de Callis, estrategista do private banking do Votorantim. A emissão, com vencimento em junho de 2018, saiu com uma remuneração de 102% do CDI ao ano, no piso do intervalo estimado, que ia até 109%.

Em andamento, há ainda uma oferta de cerca de R$ 500 milhões com lastro em recebíveis da Duratex, originados da transação de compra de madeira fornecida por outra empresa do grupo, a Duratex Florestal. A emissão tem vencimento em 2022 e pode pagar até 102,5% do CDI, a depender do apetite do investidor.

Tanto no caso da Bayer quanto da Duratex, apesar do tíquete mínimo de R$ 1 mil, a oferta foi direcionada ao investidor qualificado, com mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras. Mas não se trata de uma regra do mercado, afirma Carvalho, da Guide.

O crescimento do CRA, ainda que de uma base pequena, reflete dois movimentos, segundo Ricardo Magalhães, gerente-executivo de relações e projetos da Cetip. Por um lado, as empresas precisam captar em um cenário no qual bancos públicos retraem a oferta de crédito. Por outro, o investidor está em busca de papéis que agreguem rentabilidade na renda fixa, já que a bolsa tem afastado participante pela percepção de risco.

Magalhães também alerta para o fato de o CRA ter como base uma operação de securitização de crédito. "Ela exige um investidor com muito mais conhecimento do que o do dia a dia de LCA e LCI", diz. E chama a atenção para o fato de o mercado secundário ser pequeno e ainda estar em desenvolvimento.

Em 2015, o prazo médio das emissões foi de 2,5 anos, segundo a Cetip, mas há papéis com vencimento em cinco anos. Há uma tentativa de minimizar o problema da falta de liquidez com a contratação de formadores de mercado pelo emissor.

A XP, por exemplo, tem atuado como formadora, caso das emissões de JSL e Raízen, essa última no fim de 2014, que foi, para Rubens Machado, da equipe de renda fixa da casa, um marco na história dos certificados. "O mercado tinha um preconceito com a emissão de CRAs, porque não acreditava que teria liquidez no secundário. Provamos que ela pode ser alcançada por meio da pulverização", diz, em referência à distribuição para um grande número de investidores.

A função de formador de mercado envolve colocar preços de compra e venda para os papéis, mas, segundo Machado, há também um trabalho de informar os investidores sobre as empresas e emissões, por meio de eventos. Pelo lado da distribuição, a XP procura ter sempre ao menos dois CRAs na prateleira virtual, com aplicação mínima perto de R$ 1 mil. "Esse mercado tomou corpo a partir do segundo semestre do ano passado", diz.

É mais por esse risco de liquidez do que pelo de crédito que Felipe Merencio, responsável por renda fixa no private banking da Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG), diz ter evitado algumas operações. "O secundário ainda não é tão ativo, então preciso exigir um pouco mais de taxa para entrar." Mesmo depois de uma peneira para deixar somente empresas de primeira linha, os clientes da CSHG nunca tiveram tantos CRAs no portfólio.

Para ajudar na seleção, Merencio divide os CRAs em dois grupos. Há as emissões de volume pequeno, envolvendo o risco do produtor rural ou um risco de crédito pulverizado. E há um segundo grupo, ao qual o especialista em renda fixa da CSHG dá preferência, mais focado no risco corporativo. São empresas de capital aberto que usam o certificado para captar recursos baratos com benefício fiscal. "Nesse caso, o risco de crédito propriamente dito é o da empresa de capital aberto, que é mais fácil de monitorar ao longo do tempo da operação", afirma. Segundo ele, os clientes também entendem melhor esse tipo de estrutura. (Colaborou Alessandra Bellotto)

 

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Leasing Vai Somar Dívida de US$ 2,2 Trilhões em Balanços

http://www.valor.com.br/empresas/4389044/leasing-vai-somar-divida-de-us-22-trilhoes-em-balancos

Leasing vai somar dívida de US$ 2,2 trilhões em balanços

Não há mais como adiar. Depois de mais de dez anos de discussões intermináveis, o órgão que edita as normas contábeis internacionais IFRS, adotadas no Brasil, publica hoje um pronunciamento que vai obrigar que as empresas registrem como dívida em seus balanços US$ 2,18 trilhões em contratos de leasing operacional que hoje são divulgados apenas em notas explicativas.

Se há algum consolo é que a nova norma se tornará obrigatória apenas em 2019, o que deve dar tempo para as empresas adaptarem seus sistemas e, principalmente, educarem os investidores sobre a novidade.

Levantamento feito pelo Conselho de Normas Internacionais de Contabilidade (Iasb, na sigla em inglês) com base de dados de 30 mil empresas pelo mundo indica que há um total de US$ 2,86 trilhões em contratos de arrendamento que estão fora do balanço, com valor presente estimado de US$ 2,18 trilhões.

Embora o efeito seja gigantesco, ele será bastante concentrado, com apenas 1.022 empresas sendo responsáveis por 76% desse novo passivo, ou US$ 1,66 trilhão.

Conforme estimativas do Iasb, os segmentos de aviação, varejo e viagem e lazer devem ser aqueles com maior impacto proporcional quando se compara o valor dos futuros pagamentos e o total de ativos. Haverá exceção de adoção da regra apenas para leasings de pequenos valores e para contratos de menos de 12 meses.

No Brasil, a empresa com maior impacto deve ser, com folga, a Petrobras, que divulgou em notas explicativas do balanço do terceiro trimestre ter R$ 417 bilhões em pagamentos mínimos de arrendamento operacional.

A companhia não deixa claro, contudo, se todo esse valor é "não cancelável" - já que é apenas essa parcela que passará a ser tratado como passivo quando a nova regra estiver em vigor - e nem calcula o valor presente desses compromissos, sendo que, desse total, R$ 232 bilhões são obrigações que vencem de 2020 em diante.

Para efeito de comparação, a dívida bruta que já está devidamente contabilizada no balanço da Petrobras somava R$ 506 bilhões em setembro do ano passado.

Além da Petrobras, empresas de aviação como Latam e Gol também devem ser bastante afetadas, embora elas já deem destaque a esses compromissos "fora do balanço" quando apresentam seus resultados, normalmente apresentando como dívida a despesa anual de leasing multiplicada por sete ou oito anos. Em setembro, a Latam tinha R$ 10,7 bilhões em leasing operacional divulgado em nota explicativa, para uma dívida contabilizada de R$ 35 bilhões, enquanto a Gol tinha arrendamento operacional de R$ 7,6 bilhões, para uma endividamento formal de R$ 9,5 bilhões.

Grandes varejistas também estão entre aquelas que terão que rever seus registros contábeis, uma vez que contratos de aluguéis de longo prazo que prevejam pagamentos mínimos e multas de rescisão também são enquadrados como arrendamento.

Petrobras divulga em nota arrendamentos de R$ 417 bilhões, mas nem todo esse valor deve entrar como passivo

Em termos de registro contábil, as empresas terão que passar a tratar o leasing operacional da mesma forma que lidam com o leasing financeiro, que é considerado hoje uma forma de financiamento de compra de um bem.

Os compromissos futuros com pagamentos a valor presente são registrados como passivo e o bem, ou direito de uso dele, fica contabilizado como ativo.

Para um contrato novo ou para as empresas que optarem pela alternativa de não fazer um ajuste retrospectivo do balanço, o impacto imediato da nova norma no patrimônio líquido é nulo.

A diferença em termos de lucro antes de impostos deve ser apenas temporária, com despesas maiores na primeira metade do prazo do contrato e menores depois, em vez do gasto linear que existe hoje. Já o lucro operacional e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) devem ficar maiores com a nova regra.

Isso porque o gasto com arrendamento vai sair da linha de despesa operacional e passará a ser repartido entre depreciação e despesa financeira.

As duas linhas são descontadas no cálculo do Ebitda, e a segunda não entra na aferição do lucro operacional, o que deve jogar para cima esses indicadores.

Essa diferença na demonstração de resultados, aliás, é um dos pontos que o Iasb destaca como positivos com a adoção da nova regra contábil a partir de 2019.

Não porque vai elevar essas medidas de resultado, mas porque facilita a comparação entre uma empresa que compra um ativo financiado e outra que opta pelo arrendamento - hoje a primeira fica mais endividada, mas com Ebitda maior e vice-versa, o que pode levar a conclusões erradas por parte dos usuários.

O Iasb afirma que investidores mais sofisticados, bancos e agências de classificação de risco já faziam ajustes quando analisavam os balanços de empresas com contratos de arrendamento relevantes, o que leva a entidade a crer que não haverá crescimento generalizado do custo de capital.

Se houver alguma elevação, diz o Iasb, isso vai decorrer de uma melhor tomada de decisão do credor, "diante da maior transparência sobre a alavancagem financeira da companhia".

 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Incorporadoras Devem Enfrentar Novo Ano de Retração

http://www.valor.com.br/empresas/4379548/incorporadoras-devem-enfrentar-novo-ano-de-retracao

Incorporadoras devem enfrentar novo ano de retração

O setor de incorporação começa 2016 diante de um cenário ainda desafiador em relação à crédito imobiliário, às incertezas quanto aos rumos da política e à perspectiva de nova retração do Produto Interno Bruto (PIB). O ambiente se reflete na demanda retraída por imóveis e em patamares elevados de distratos e estoques. Há pouco estímulo para ousadia na tomada de decisão de lançamentos pelas incorporadoras. A melhor das hipóteses, segundo analistas ouvidos pelo Valor, é que o volume de lançamentos e vendas fique semelhante ao de 2015, mas a avaliação mais recorrente é que outra retração poderá ocorrer.

"O ano de 2016 será muito difícil. Vamos tentar achar alternativas para escoar os estoques", afirma o presidente do Secovi-SP, o Sindicato da Habitação, Claudio Bernardes. Na cidade de São Paulo - maior mercado imobiliário do país -, o volume de lançamentos e vendas de unidades novas residenciais recuou, em 2015, para os mais baixos níveis em mais de uma década, segundo o Secovi-SP, ficando inferiores a 2004, quando marcos regulatórios do setor, como o patrimônio de afetação, foram definidos.

"Os juros aumentaram, a oferta de crédito diminuiu, e há falta de confiança do consumidor", diz o presidente do Secovi-SP.

Na avaliação de Bernardes, o setor pode "começar a andar, no fim de 2016, se houver uma solução razoável para o impasse político e institucional". O Sindicato da Habitação estima que, no consolidado do ano passado, foram lançadas 21 mil unidades na capital paulista, 38% abaixo do volume de 2014 e vendidas 17,3 mil unidades, com retração de 20%. Para efeito de comparação, em 2004, os lançamentos somaram 22.550 unidades, e as vendas atingiram 20.183 unidades.

Considerando-se o desempenho nacional e somente das incorporadoras de capital aberto, 2015 foi o quarto ano consecutivo de encolhimento do setor. A piora das condições de crédito - uma das principais razões para a retração do setor, no ano passado, e para que a perspectiva de queda de distratos ficasse mais distante -, começou em maio. Já na largada de 2016, o crédito está mais caro e restrito do que no início de 2015.

De janeiro a outubro, o volume de vendas de imóveis superou o de lançamentos, segundo o índice Abrainc-Fipe

O volume consolidado de entregas de imóveis tende a ser menor do que no ano passado, o que pode contribuir para a redução absoluta dos distratos. Mas a participação relativa dos cancelamentos de vendas no total dos projetos continuará alta, tanto pela negação de crédito por bancos para uma parcela dos compradores, no repasse, quanto pela decisão de uma fatia dos clientes de não se manter endividados neste cenário de baixa confiança frente ao maior risco de desemprego.

De janeiro a outubro, o volume de vendas de imóveis superou o de lançamentos, conforme dados do índice Abrainc-Fipe. Nos dez meses, foram lançadas 45,2 mil unidades e vendidas 89,4 mil. O índice Abrainc-Fipe foi desenvolvido pela Associação Brasileira das Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) em parceria com a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e considera informações de 18 incorporadoras.

Nas reuniões públicas realizadas no fim do ano, o tom predominante das incorporadoras, ao comentar sobre lançamentos, era de cautela, e as empresas evitavam projeções. A busca de redução de estoques continua a ser o foco, assim como a revenda das unidades distratadas e a tentativa de evitar novos cancelamentos, por meio de medidas como a oferta de financiamento direto.

A PDG Realty - que possuía a maior alavacangem do setor no fim de setembro, com relação dívida líquida sobre patrimônio líquido de 127% no fim de setembro - informou que voltará a lançar projetos quando o mercado permitir. A Rossi Residencial sinalizou intenção de retomada de lançamentos no fim deste ano ou no início de 2017. A Tecnisa divulgou que será uma empresa de R$ 1 bilhão por ano no próximo ciclo de lançamentos, mas deixou claro que esse tamanho não será alcançado em 2016.

Em meados de dezembro, o diretor financeiro e de relações com investidores da EZTec, Emilio Fugazza, disse que a companhia só voltaria a lançar empreendimentos "com mais intensidade" em dois anos. Segundo Fugazza, há projetos para lançamentos, em 2016, superiores aos de 2015, se a empresa reduzir estoques e se houver estabilidade política. Para ter ritmo maior de novos projetos, a EZTec precisa vender, trimestralmente, de R$ 100 milhões a R$ 150 milhões em estoques.

A Cyrela informou que seu tamanho tem de se adaptar às dimensões do mercado, mas que o volume de lançamentos deve ser mantido em São Paulo. A Even afirmou que vai buscar equilíbrio entre lançamentos e venda de remanescentes, mas que isso ainda não ocorrerá em 2016. Não há expectativa, na Even, que o ano seja de recuperação do setor.

A Helbor estima lançar de R$ 800 milhões a R$ 1 bilhão em 2016 (incluindo a parte dos sócios nos empreendimentos), ante os quase R$ 500 milhões que esperava para o consolidado do ano passado, mas não tem projeção oficial e depende do mercado para de fato apresentar os empreendimentos. Também sem meta oficial, a Gafisa divulgou que lançará de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão no ano, somente na divisão de mesmo nome, sem incluir a Tenda. Já a MRV Engenharia avalia que lançamentos e vendas ficarão em linha com os de 2015.

Segundo o diretor financeiro e de relações com investidores da Rodobens Negócios Imobiliários, Flavio Vidigal De Cápua, a companhia só vai lançar produtos se tiver "boa segurança do índice de comercialização e de que haverá boa aceitação". "Temos capacidade para R$ 1 bilhão por ano, mas não adianta lançar sem ter mercado", diz. A Rodobens não chegará a esse patamar e 2016, quando deve lançar mais produtos de loteamentos do que de incorporação.

Para reforçar a geração de caixa, outra prioridade do setor, algumas companhias apostam também na venda de ativos, como terrenos e participações em projetos. PDG tem, em curso, negociações para comercializar a empresa de shopping centers REP. Entre os ativos da Rossi à venda, está a loteadora EntreVerdes. No terceiro trimestre, a Tecnisa reduziu sua participação no bairro planejado Jardim das Perdizes, e a PDG saiu do projeto.

 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Brookfield Avalia Ativos no Mercado Imobiliário e em Infra

http://exame.abril.com.br/economia/noticias/brookfield-avalia-ativos-no-mercado-imobiliario-e-em-infraestrutura

Brookfield avalia ativos no mercado imobiliário e em infra | EXAME.com

São Paulo - A gestora canadense Brookfield, que está prestes a concluir a aquisição da fatia de 24,4% da empreiteira OAS na Invepar, avalia a compra de mais ativos no Brasil.

Além da participação no consórcio que controla o aeroporto de Guarulhos, a gestora estuda outros negócios envolvendo infraestrutura, como energia e concessões, e também prédios comerciais, apurou o jornal O Estado de S. Paulo com fontes próximas à operação.

Com forte apetite por ativos brasileiros, a Brookfield mantém conversas para fechar novos negócios já no início de 2016.

"O braço de private equity (que compra participações em empresas) da gestora também está prospectando oportunidades no país", disse uma fonte a par do assunto.

O ano que termina foi marcado por importantes aquisições da gestora canadense no mercado brasileiro.

Após se comprometer neste mês a comprar a participação da OAS na Invepar por R$ 1,35 bilhão, a Brookfield espera o fechamento do negócio, condicionado à realização de um leilão no fim de janeiro (em que a gestora terá direito de preferência, caso algum concorrente ofereça valor maior) e à aprovação do restante dos fundos de pensão acionistas da concessionária - Petros (da Petrobrás), Funcef (da Caixa) e Previ (do Banco do Brasil).

Em novembro, a Brookfield, por meio do consórcio TCL, venceu um leilão para a compra de um lote de 11 linhas de transmissão de energia em Minas Gerais, que engloba 1.323 quilômetros e nove subestações.

A oferta foi de R$ 448,8 milhões. As instalações servirão para aumentar a confiabilidade ao atendimento elétrico no leste do estado, que concentra uma das mais importantes regiões produtoras de minério e siderurgia do Brasil, conhecida como Vale do Aço.

Brasil no radar

Em maio deste ano, a gestora canadense informou ter US$ 2 bilhões para investir no país na área de infraestrutura até o fim de 2016. Apesar da instabilidade na economia, a matriz afirmou, à época, que considerava os ativos no país mais baratos e que havia oportunidades de negócios interessantes para a companhia.

Maior operadora independente de pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) no Brasil, a Brookfield concluiu, em julho passado, a compra de duas PCHs, por R$ 390 milhões, que pertenciam à EDP Energias do Brasil.

Em dezembro de 2014, a gestora canadense já tinha anunciado a aquisição de ativos de geração da Energisa, negócio que foi concluído em março deste ano, por R$ 2,12 bilhões. Novas aquisições nesta área não estão descartadas.

No mercado imobiliário, a Brookfield também protagonizou este ano importantes aquisições.

A gestora comprou por cerca de R$ 2,1 bilhões sete prédios comerciais em São Paulo, entre eles duas torres comerciais do Shopping JK, e Rio de Janeiro que pertenciam à BR Properties, da qual o BTG Pactual era um dos principais acionistas, mas está se desfazendo de sua fatia.

No início do ano, Brookfield e BTG chegaram a fazer uma oferta para a compra do controle da BR Properties, mas a proposta não avançou. A Brookfield optou pela compra dos imóveis comerciais que pertenciam à BR Properties.

Já o BTG começou a se desfazer há um mês de boa parte dos seus ativos, depois que seu fundador, o banqueiro André Esteves foi preso por suspeita por tentar obstruir as investigações da Operação Lava Jato, que investiga corrupção na Petrobrás. Esteves foi solto na semana passada.

Estratégia global

A Brookfield quer replicar parte de seu modelo de negócios no Brasil. Com cerca de US$ 200 bilhões em ativos em todo o mundo, a América do Sul responde por cerca de 10% desse total e deverá crescer sua participação, se depender dos negócios que estão em andamento no Brasil.

No relatório de 2014 da Brookfield, a gestora tinha cerca de R$ 35 bilhões em investimentos no país e presença em 14 Estados.

As áreas de real state (imóveis), infraestrutura e energia renovável) estão entre os maiores aportes da Brookfield no Brasil.

"O apetite da companhia não acabou com os nossos recentes anúncios. Há interesse do grupo em participar de mais leilões (de energia), avançar em infraestrutura e real state", disse uma fonte a par do assunto.